domingo, 22 de janeiro de 2012
Portas
Há portas por todo lugar. Portas se abrindo, portas se fechando. Portas que levam a mais portas, portas que levam a lugar nenhum, uma depois da outra. Quartos vazios que fazem parte de uma única estrutura, uma espécie de engrenagem, uma máquina pela qual eu perabumbulo como um fantasma. Enquanto ando por esses quartos, vejo cenas e pessoas que não posso tocar, algumas familiares, outras estranhas, cheias de significados e ao mesmo tempo insignificantes. É tudo muito rápido e indefinido. Quando consigo juntar as peças, as cenas se desfazem, pensamentos explodindo no espaço. Como um mundo grande demais para ser totalmente explorado ou palavras fora de contexto contendo códigos indecifráveis. Minha alma está presa nessa engrenagem e minha mente acompanha tudo como um passageiro. Invariavelmente, as portas dão em escadas que sobem e descem, diferentes andares dessa mesma estrutura, como buracos de minhoca que levam para o passado e para o futuro, pois da mesma forma que não há saída, não existe tempo. Eu consigo diferenciar um do outro, como se olhasse por uma janela, mas eles se misturam. Ao mesmo tempo em que me vejo no fundo de um calabouço, cavando uma saída pela terra lamacenta enquanto escorrego e luto por ar, movido apenas pelo desejo de me libertar e possuir tudo, também me vejo no topo de uma torre envidraçada, dono de tudo e olhando com ar pensativo enquanto a chuva cai lá fora, lamentando por não desejar mais nada. Porque tudo é nada, e hoje o tudo é meu. Isso é o que existe de mais coerente na máquina, ecos perdidos no tempo, tão distantes quanto próximos. O que existe entre os ecos? Existe vida em ecos? Eles surgem dos mais diferentes lugares, mas há um buraco no meio. Um fantasma na máquina. Digo a mim mesmo que são apenas ecos, que não há vida no vazio, que não pode haver. Mas os ecos estão lá. Malditos ecos...
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