quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Eis a questão



Busco conforto no passado e só vejo tudo que já acreditei se virando contra mim. Quero dormir, mas não quero acordar. Quero acordar, mas não quero dormir. Quero sentir, mas não sei como. Lembro quando sentia e a dor de sentir. Quero sentir, mas não quero sentir dor. Quero sentir dor, mas não quero sentir. Quero viver, mas não quero morrer. Quero morrer, mas quero viver. Estou morto e vivo, aqui e lá. Sou e não sou. Vivo e não vivo. Já fui e não sou mais. Ainda serei. Ser ou não ser? Eis a questão.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Razão para viver

Pode soar muito negativo, mas não acredito que haja uma razão fundamental para viver. Consigo ver sentido em causas práticas como pagar contas e sustentar uma família, quem sabe usar o talento de um ofício em prol da sociedade, o que está ligado a pagar contas e afins. Mas fora isso, levando em conta a imensidão do universo, a vida ou a morte de um indivíduo é quase microscópica. Diante disso, existem duas opções: resumir a vida ao que eu citei acima ou ver sentido na falta de sentido. Isso é, aceitar que somos orfãos de um universo indiferente, que não existe um Grande Pai protetor ou uma Grande Mãe acolhedora, a quem buscamos nos relacionamentos amorosos, muito menos na forma de divindades. É possível que o sentido esteja justamente na falta dele? Pois considere o grande leque de possibilidades que se abre, como a inexistência de um guia - ou modelo citando um post anterior - oferece uma perspectiva libertadora. Ou seja, o deficiente teria sim tantas motivos para viver quanto qualquer um, ou melhor dizendo a falta de motivos. Chego a essa conclusão porque muito se fala disso na comunidade dos deficientes, como talvez a impossibilidade de pagar contas e sustentar uma família, ou mesmo namorar. Simplesmente porque é o pensamento comum, o que todos fazem e também se queixam da falta de sentido. Claro que são coisas boas e podem contribuir para uma vida mais significativa, mas de maneira alguma se trata de uma lei universal. Se existe uma, é a indiferença. Curiosa essa palavra, não? Indiferença. Como se não existisse diferença entre os seres vivos e todos fossem iguais para o universo. Quer sentir inveja da pessoa que tem "tudo" e menosprezá-las quando se queixam? Pois o universo não difere quem tem ou não tem, entre o rico e o pobre, o feliz e o triste. Então por que separar o deficiente do não deficiente? Se o próprio universo não faz distinções, por que você o faria?

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Exemplo de vida

Muitas vezes sou "acusado" de ser um exemplo de vida. Tem coisa mais chata? Isso quando não vem acompanhado de uma frase de cunho religioso com a intenção de me motivar. Claro, devo aguardar isso o dia todo, né? Ouvir o quanto sou fabuloso e que Deus me ama. Quer dizer, não basta ser definido como um ser humano abstrato, minhas virtudes foram predeterminadas por um ser abstrato. Mas deixando o desabafo de lado, vou tentar compreender a origem desse pensamento, como ele foi consolidado e repetido até se tornar um discurso pronto e inócuo. Acredito que surja da indefinição que o deficiente causa, a maioria das pessoas nunca tiveram contato com um e mesmo quem já teve pode ter dificuldade em compreender o deficiente, como ele vive e "faz o que eu faço como se fosse uma pessoa normal". Partindo daí, existem duas opções: ignorá-lo ou enaltecê-lo. Não vou nem gastar tempo a respeito de quem ignora, prefiro falar do incauto bem-intencionado que enaltece o deficiente, como se ser exemplar fosse sua única razão de existir, buscar esse objetivo e ser reconhecido como tal. Alguns deficiente agem assim e reforçam o estigma, mas é algo comum em qualquer tipo de comunidade, seja a pessoa deficiente ou não. Mas seguindo o meu raciocínio, insisto na árdua tarefa de compreender esse pensamento e para isso usarei o tópico que mais gosto: mulheres. Afinal esse sujeito exemplar também estaria em busca de uma mulher exemplar, aquele ser mítico e semi-divino que ficaria toda hora a sua volta, sendo compreensiva e topando o desafio. Uma chata insuportável basicamente. Aí faço uma pergunta: já imaginaram um deficiente se relacionando com uma mulher liberal, quem sabe só uma noite de sexo descompromissado, e pasmem - não ligando no dia seguinte? Ou simplesmente dando um pé na bunda nela? Deixo-os com esse pensamento e faço o mesmo comigo.

Obrigado mais uma vez!

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Coitadismo

Venho falar mais abertamente sobre o coitadismo e a questão de namorar uma mulher não deficiente, que não é relevante apenas para mim, mas para outros deficientes com quem tenho contato. Além da questão de muitas vezes existir uma incompreensão a respeito do deficiente, sua vida cotidiana e como ele vive com limitações, o próprio deficiente pode ter dificuldade de compreender a vida de um não deficiente. Com certeza essa é a perspectiva da qual entendo mais, poderia falar sobre insegurança e complexo de inferioridade, mas isso depende muito de cada indivíduo e sua condição social. Talvez seja relevante falar sobre o que pode causar esses sentimentos e para isso vou citar um exemplo bem compreensível, a quase inexistência de deficientes em nosso meio cultural, alguém que pudesse ser exemplo de independência e visto em uma relação com uma não deficiente, um modelo por assim dizer. O deficiente não tem em que se espelhar considerando que seus pais provavelmente não são deficientes, portanto são modelos apenas até certo ponto, pois também nunca tiveram um deficiente como referência. Sem ela, o deficiente se dissocia e passa a imaginar as coisas sob a ótica de um não deficiente, pois nunca viu a outra alternativa. Nunca se viu no papel de um deficiente capaz porque talvez nunca tenha visto nenhum. Ainda mais em uma relação homem-mulher. Mas isso é assunto para continuar em outros posts e os convido a seguir acompanhando.

Grato!

Amor é cegueira


Pobre sujeito

Imagine como seria. Um homem deficiente e uma mulher andante. Como pensariam bem dela, como diriam ser bonita por dentro e por fora e corajosa. Como se abrisse mão de uma vida normal e fosse cuidar do pobre sujeito. Pobre sujeito que estuda ou trabalha e busca ser mais independente. O pobre sujeito que sempre se coloca a disposição de amigos e familiares. Pobre sujeito que sai na rua, enfrenta calçadas esburacadas e só quer tomar uma cerveja. Que pobre sujeito esse!